Tesouro
Livros, centenas deles empilhados num lugar remoto da lembrança. Onde costumava haver o descobrimento, a surpresa. Estavam ali pela intuição e jamais por qualquer ordem, antes pelo desejo de que houvesse a disciplina. Voltaram todos eles a mim numa noite insone, com o mesmo perfume, as mesmas cicatrizes do tempo. E os vou retirando desse lugar e empilhando ao léo em cima da mesa que servia de assento, posto que ainda criança. E por detrás, escondidas, uma infinitude de caixas, baús pequenos. É quando, extasiada, chamo aos gritos minha mãe para compartilhar comigo o esplendor de tal tesouro. São brincos, colares, pulseiras de todas as espécies, que havia certamente perdido em algum tempo, antes mesmo de existir. Ficamos horas a nos saciar com a descoberta, eu e minha mãe; como se invisíveis pela eternidade, resolvessem se doar agora. E os detalhes são tantos que nos sentimos ricas de ouro de tolo, é bem verdade, mas o valor é só nosso. Fomos nós as bandeirantes. Antes de nós, aquele amor era intocável.

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