Apenas
05/02/05
O problema é que já não escrevo concreto. Não sei mais dos detalhes de realidade. Só me cabe o sentimento que não me permite descobrir o que está errado, por ser tão impalpável e tão nítido. Já profundo, a superfície me escapa e é preciso saber dela, senão vem a alienação de si mesma. Ninguém pode ser feito apenas de abstrações, o cotidiano precisa de um pouco de leveza. Precisa do café em família, sendo este apenas aquele apressado e descuidado, sem olhares e interrupções, silêncios mínimos de si mesmo que ainda permitem recuperar o fio da conversa. É preciso querer mudar a cor do cabelo, limpar as gavetas, ir ao salão de beleza sem se sentir coagida por tanto desprendimento em relação ao mais precioso da vida. Pessoas descuidadas, apenas vivendo, entregues e de sorrisos espontâneos, que falam dos outros, sempre dos outros, expondo tanto a si mesmas. É preciso desejar escrever, e apenas isso. Sem salvações, sem esperanças de ser alcançada e acarinhada. Apenas juntar letrinhas e deixar que elas me revelem como um espelho. Escrever apenas. Mecanicamente. Continuamente e sem dor que se perceba, pois ao se perceber a dor, ela foge e deixa outra, ainda mais difícil de traduzir. É preciso escrever sem o desejo de se traduzir. E viver. Apenas. Em fluxo, instinto. Sem este cansaço que me amarela os dentes, fatalmente. Viver.

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