Travessia

Thursday, June 23, 2005

FOTOGRAFIA

14/06/05

Tudo agora se ressente da infância. O cheiro calmo dos dias, a simplicidade de tudo que estava à volta. A atmosfera de carinho, quente, suave, o pai chegando do serviço, a mãe nas horas intermináveis de amor, a fraternidade num corredor, bolinhas de gude e seriados japoneses à tardinha. Depois, o jantar limpo, o suco cálido da crença, o alimento suficiente. A vida em si era suficiente, apesar de desde sempre silenciosa e solitária- suficientemente certa e crente. E é como alguém que tenta vestir eternamente o mesmo vestido de primeira comunhão, olhando a foto amarelada, arfante por alcançar novamente a beleza do que havia. E, sem perceber o próprio corpo, força as mangas e a cintura, e a vestimenta, já puída, cede sem esforço ao fim definitivo, pois que mesmo material, somente era lembrança. E o espelho reflete a aberração: os trapos e a desmesura da menina que se enxerga, assim sem saber como, tão velha quanto o vestido. Os cabelos de um branco amarelado, as formas imensas e flácidas, as linhas do rosto, cicatrizes do tempo, os olhos foscos, perdidos em si mesmos. E a velha mesma precisa romper-se, posto que somente existe em lembrança de um futuro incerto. Despe-se, então, do vestido, da própria pele, da escravidão do terno e do amargo, e sobre o chão vão ficando as lembranças, passadas e vindouras, todas juntas. Até que reste apenas a mulher que ela é agora.