A mulher redescoberta
me veio a repentina lembrança da moça quieta e sempre à espreita de algo. eu fui assim por uma vida inteira... mas, derradeira, não pude durar. a irrealidade do imediato me socou a cara e me deixou sangrando e quis profundamente ser a mesma que já não mais era, a verdadeira. e eis que me veio essa outra mulher em mim, de cabelos esvoaçantes e boca carnuda. eu pude medir o meu viço e descobrir o negro e revolto mar de mim. e já não havia retorno para o que permanecia em minha memória. o passado me era impossível. eu me descobri vermelha, ventania que sou. existe essa vida que pulsa além da palidez e, eu, ah eu sempre fui colorida, ainda que no escuro. me veio o espelho que me revelou os seios e o negro contraste de meu sexo e me revelou assim, ainda me furtando todo resto. a ilusão que no instante me traveste é esta- estou liberta e sinto ventar como nunca. eu, a mulher redescoberta.

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