Travessia

Sunday, January 08, 2006

Cordeiro

No colo de um estranho, a moça por fim, encontrou-se em paz. Ansiosa de calma, ela se fez a mais bela tal qual o mais poderoso dos feitiços. Quis provar aquele amor, provar de todos os seus frutos, mas é que uma só vida não basta. Ela precisaria de uma eternidade para colher naqueles olhos fundos toda a extensão do homem que só lhe dizia a verdade, cuja sinceridade lhe escapava pelos dedos, hesitante, fugidia, mas tão certa de se ocultar sendo assim tão transparente. Lugar mais seguro que alguém já habitou. Amou profundamente o tal homem e restou em seu peito como uma cicatriz- tão confiante de ter restado em seu peito ela estava. Passou a dedicar-lhe suas noites de solidão que durariam o quanto lhe sobrava de vida. De janela aberta, em noites de lua, sentindo o calor e o acalanto da noite escura. Por entre fulgurações, o avistava ofegante- logo a cavalgar em si mesma-o seu redentor, o mais bravo e doce dos mortais. Feiticeira, ajoelhava-se e o trazia como mágica para dentro de si, buscando-o na maior distância que já houvera, rouco, ávido do sangue fresco de suas artérias. E o homem embriagava-se dela, rainha absoluta. O dia cruel a amanhecer e arrancar-lhe as palavras . E o homem partia. O homem amado por uma noite inteira. No ventre o rebento a romper como evidência de seu pecado de amar. Não, não imaginava: - Existe e haverá de voltar! Repetia a insana. O mais amado de todos vai regressar com a noite e, em sacrifício, no altar do desejo, cordeiro, ela novamente em prece estará.