Maternidade
" Faço longas cartas pra ninguém.."
Eu retorno com tanto aqui pra dizer e desta vez quero ser bem explícita, descarada. Mas não consigo. A minha dor travestida lançou mão de um outro véu, para que eu nunca soubesse. A desimportância disso tudo me clareou os sentidos: - é tudo, tudo desimportante. E desta vez, queria poder não me contradizer, mas sou escrava de abstrações. Desde o mais tenro conselho, aquele, vindo "das coisas que aprendi nos discos" ou nos livros tão significativos, o que me sussurrou ao ouvido:- elimine as circunstâncias, ou as faça as mais particulares que puder.
E condenei-me ao extremo, sendo, ainda assim, metade, meio caminho, porque eu sou meio mesmo: pente que a velha rainha guarda entre os livros, revistas que enrola e deixa assim pela casa, resto de pão que se encontra, absurdo, no meio das roupas da gaveta.
Mas disse que vim para ser explícita, eu jurei. E cumpro a promessa. Hoje fui ao cinema e vi um menino. Maternidade. Finalmente, eu compreendi. É ali onde tudo começa, não? E começa porque as pessoas mais amadas começam a dizer adeus. Assim, numa despedida infinita, elas vão nos dizendo que estão partindo. Então, a mulher inventa a luz em si mesma. Para não ficar só, para igualmente dizer adeus. Egoísticamente. Peso. Me perdoem, sou louca. Ou vai ver que sou eu é quem parto, que estou sempre partindo. Eu sempre fui mãe.

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