Travessia

Friday, September 08, 2006

Eu costumava guardar os vestidos novos. não conseguia usá-los em dias comuns: para ir à escola, à padaria, ao supermecardo, à loja de brinquedos. idolatrava aquelas peças tão bonitas ali, quietas, dentro do guarda-roupas. e não importava se hoje estava maltrapilha, a grande ocasião haveria de chegar.
Sucediam-se os dias, e no quintal, novos abacates verdinhos. Com eles minha mãe faria sorvete que eu comeria no telhado, de onde dava pra avistar os carros apressados na avenida.
Minha atenção se desviava dos vestidos, admito o meu descuido. E logo chegaria o dia de ir a um aniversário, uma festinha da escola, um casamento...
Mas sobre o meu corpo, o vestido me contradizia. ele não brilhava mais e seu cheiro ainda era agradável, mas era um cheiro de lembrança. os vestidos portavam seu próprio tempo e eu, um tempo diferente. eternidades em desencontro.
E eu ficava a me perguntar pelo segredo que se escondia no meu guardas-roupas que deixava os meus vestidos assim, já que do lado de fora, tudo continuava tão igual.

Monday, September 04, 2006

nobody feels any pain

"Nobody feels any pain
Tonight as I stand inside the rain"
(bob dylan, Just like a woman)

yes, I do believe in pain

and I wish I could believe in you
but I know you enough not to

yes, I'm aware of this stuff
from the beginning to the last sweat
I've been through all this
and I can assure you
that it was
more than once.

e eu bem que acredito estar um dia
a um passo de mim
para que seja fluída
e para que tudo se esvaia
e se renove?

eu lembro do futuro
aqui no peito
e desconstruo a memória
para que seja leve
aquilo que não for.

e na tela a certeza de só estar
onde for o tempo
ou talvez o desmedido desejo
de só permanecer
onde for a vida.

Saturday, September 02, 2006

The Lake House


Nem sei por onde começar, pois queria começar de um jeito diferente, sem a constante hesitação. E queria escrever como um novelo, desfazendo-se precisa e calmamente, como quem se reencontra com a certeza de sua singularidade.

Hoje fui ao cinema. Sozinha, ver este filme que há tempos desejava. E é incrível como a solidão de um dia como este me apraz tanto. No escuro, ali, tentando capturar cada quadro do filme, uma história tão delicada.

Sobre a espera.

Esperei pra ver até o fim, qdo a tela volta a não ter nenhuma projeção e o som ambiente da sala escura retorna. E depois, saí.

Fui andando ...

Me veio outro filme, TRÊS ENTERROS, o sentimento de lealdade a si mesmo como forma de ser leal a tudo em volta que este filme me deixou.

Eu andei tão certa de mim naquele instante, que queria aprisioná-lo. Então, num papel largado no fundo da bolsa, rabisquei com um lápis de olho uma frase e a datei.

E ao fazê-lo, eu o fiz ciente de que a espera é fundamental, mas a espera que se abre e se transmuta em esperança, aceitando com vigor cada fagulha de vida- café com chocolate que tomei logo após e o sorriso da senhora que me servia e via em mim todo o meu desejo de estar ali, plenamente.