Travessia

Friday, September 08, 2006

Eu costumava guardar os vestidos novos. não conseguia usá-los em dias comuns: para ir à escola, à padaria, ao supermecardo, à loja de brinquedos. idolatrava aquelas peças tão bonitas ali, quietas, dentro do guarda-roupas. e não importava se hoje estava maltrapilha, a grande ocasião haveria de chegar.
Sucediam-se os dias, e no quintal, novos abacates verdinhos. Com eles minha mãe faria sorvete que eu comeria no telhado, de onde dava pra avistar os carros apressados na avenida.
Minha atenção se desviava dos vestidos, admito o meu descuido. E logo chegaria o dia de ir a um aniversário, uma festinha da escola, um casamento...
Mas sobre o meu corpo, o vestido me contradizia. ele não brilhava mais e seu cheiro ainda era agradável, mas era um cheiro de lembrança. os vestidos portavam seu próprio tempo e eu, um tempo diferente. eternidades em desencontro.
E eu ficava a me perguntar pelo segredo que se escondia no meu guardas-roupas que deixava os meus vestidos assim, já que do lado de fora, tudo continuava tão igual.