Travessia

Thursday, November 02, 2006

Mr. Big :)

"Is it ok if I call you mine, just for while?"

sinto muito,
na medida do possível,
tanto e tanto.
nada há de ser leve,
nada.

e não me concedem a palavra.
a palavra vem-se perdendo em mim.

a minha solidão se exterioriza
em plena luz, irreconhecível,
mas de fabulosa
restou-me a aspereza
e a vergonha destes versos mal-gozados
desta pressa sem fim-
o corte exposto
e o cansaço de ser tão forte.
eu cedo.
antes um amor contradito.

cansada de ser tão forte,
eu me entrego ao erro,
e peço que me vendem os olhos,
voluntariamente.

Friday, September 08, 2006

Eu costumava guardar os vestidos novos. não conseguia usá-los em dias comuns: para ir à escola, à padaria, ao supermecardo, à loja de brinquedos. idolatrava aquelas peças tão bonitas ali, quietas, dentro do guarda-roupas. e não importava se hoje estava maltrapilha, a grande ocasião haveria de chegar.
Sucediam-se os dias, e no quintal, novos abacates verdinhos. Com eles minha mãe faria sorvete que eu comeria no telhado, de onde dava pra avistar os carros apressados na avenida.
Minha atenção se desviava dos vestidos, admito o meu descuido. E logo chegaria o dia de ir a um aniversário, uma festinha da escola, um casamento...
Mas sobre o meu corpo, o vestido me contradizia. ele não brilhava mais e seu cheiro ainda era agradável, mas era um cheiro de lembrança. os vestidos portavam seu próprio tempo e eu, um tempo diferente. eternidades em desencontro.
E eu ficava a me perguntar pelo segredo que se escondia no meu guardas-roupas que deixava os meus vestidos assim, já que do lado de fora, tudo continuava tão igual.

Monday, September 04, 2006

nobody feels any pain

"Nobody feels any pain
Tonight as I stand inside the rain"
(bob dylan, Just like a woman)

yes, I do believe in pain

and I wish I could believe in you
but I know you enough not to

yes, I'm aware of this stuff
from the beginning to the last sweat
I've been through all this
and I can assure you
that it was
more than once.

e eu bem que acredito estar um dia
a um passo de mim
para que seja fluída
e para que tudo se esvaia
e se renove?

eu lembro do futuro
aqui no peito
e desconstruo a memória
para que seja leve
aquilo que não for.

e na tela a certeza de só estar
onde for o tempo
ou talvez o desmedido desejo
de só permanecer
onde for a vida.

Saturday, September 02, 2006

The Lake House


Nem sei por onde começar, pois queria começar de um jeito diferente, sem a constante hesitação. E queria escrever como um novelo, desfazendo-se precisa e calmamente, como quem se reencontra com a certeza de sua singularidade.

Hoje fui ao cinema. Sozinha, ver este filme que há tempos desejava. E é incrível como a solidão de um dia como este me apraz tanto. No escuro, ali, tentando capturar cada quadro do filme, uma história tão delicada.

Sobre a espera.

Esperei pra ver até o fim, qdo a tela volta a não ter nenhuma projeção e o som ambiente da sala escura retorna. E depois, saí.

Fui andando ...

Me veio outro filme, TRÊS ENTERROS, o sentimento de lealdade a si mesmo como forma de ser leal a tudo em volta que este filme me deixou.

Eu andei tão certa de mim naquele instante, que queria aprisioná-lo. Então, num papel largado no fundo da bolsa, rabisquei com um lápis de olho uma frase e a datei.

E ao fazê-lo, eu o fiz ciente de que a espera é fundamental, mas a espera que se abre e se transmuta em esperança, aceitando com vigor cada fagulha de vida- café com chocolate que tomei logo após e o sorriso da senhora que me servia e via em mim todo o meu desejo de estar ali, plenamente.

Wednesday, August 30, 2006

eu tenho medo de não conseguir me deixar acompanhar.

eu não poderia ter-me deixado assim.
aconteceu. demais.
criatura feroz em mim .

e ainda costuro as memórias reincidentes
trapos ao leo, descorando sob o sol.
ilusão.

a máscara diária da delicadeza-
tanto que já não mais sei
o quanto me resta de oculta e voraz.

pra vc, eu fui ordinária,
quão tola eu fui.

mas não me pertence o espaço do passado.
resta em mim o ranço de um futuro àspero
com cicatrizes das noites desperdiçadas.

perene.
jamais houve.

o escuro me tentou novamente
e desprezei a ciência de tudo ao meu redor.

- escolha do sofrimento suportável dos romances desfeitos.

Friday, August 25, 2006

silêncio.

deslizando de conformada.

a vida. absurda.

tanto, tanto mar.

ventania.

eu continuarei.

Sunday, July 09, 2006

To my queen

perco o olhar na criança
e tento ser diversa de mim
foco que perco
para me concentrar na distração
pra fugir do inexato
e reencontrar na solidão
a exata medida do momento.
eu vi , mas não com outros olhos.
eu vi, mas não quis. reneguei o presente
e me desfiz em fortaleza.
tirei dos bolsos o punhal
e sufoquei o instante do amor
para que somente ele vivesse.
é que na verdade eu desejava escrever sobre um sofrimento real,
mas não posso ainda.
não enquanto houver esta maior dor.