Muralha
Tenho aprendido. Tanto, de tanta coisa. Aprendi sobre o silêncio e a independência das pessoas. Sobre o vento e as manhãs. Sobre a inevitabilidade e a possibilidade de tudo ser o que é. Aprendi que a mágoa cose os pontos da minha vida, perpassando os sentimentos- arremate fundamental. Aprendi que ela me exige quando quer e que quando vem, tenho de ficar quieta, até silenciarem as milhares de vozes, até esquecer que tudo é sempre novo e urgente. Até que ela finalize o seu minucioso trabalho e me deixe no corpo as cicatrizes. A mágoa age como franco-atiradora, invisível guerrilheira e me ataca aonde quer que esteja. Ela vem no meio da rua, das pessoas, no meio da alegria, que sempre permanece em mim. E, acuada, corro, procuro esconderijo e espero. Tenho aprendido que ela, como os meus meninos, sempre me diz adeus. Mas volta. E tão forte, e tão dona de si, que destrói diques, barricadas, cercas e muros. Me mostrando toda violência da minha liberdade, todo poder de toda vida. Segundos, frações de tempo, eternidades. Ela parte. Deixando em mim toda sua fortaleza de navio.

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