Travessia

Sunday, November 27, 2005

Procura-se


eu precisava escrever algo que dissesse o porquê de estar perdida. que me fosse cristalino como essas coisas que todo mundo diz que vê. eu precisava escrever sobre o que tenho em mim até que tudo ficasse definido, nem que depois disso eu me sentisse exausta de tanto procurar entender. que me explicasse o excesso de auto-desconfiança e que me explicasse tanto orgulho pela dor aqui dentro.
eu inventei milhões de amores só pra me sentir segura. bem confortável na minha solidão.
será que alguém me viu por aí? vou espalhar um cartaz de procura-se pela cidade. e aí, se alguém me vir, por favor, digam-me pra voltar aqui pra casa desta estranha que quer tanto me conhecer. obrigada.

Definir

escrever com as mãos vermelhas
e as unhas e o corpo inteiro
cantar irremediavelmente a ausência
observar o tempo que se esvai
definir.

a maçã se foi e os dias ficaram tenebrosos. a criança taciturna do espelho admira os restos de algo que se forma diante dela. vem o tempo e diz: -não mais serei o teu senhor... vem a vida e diz: - existe o impossível como também a impossibilidade...e a criança fica triste. ela precisa de silêncio, a temerosa. vem a moça pálida e diz: - eu preciso de uma obsessão... vem o rapaz vivo e diz: - jamais serei o teu consolo... vem o tempo e diz: - arde a desesperança no peito da amante... as ruas ficaram claras pelo desejo que se contradiz a cada instante. a criança que se perde diante do espelho. bem melhor não conhecer. bem melhor não existir. mas a verdade é que a descoberta há. fatal. e que esta criança há de se tornar a grande feiticeira da vida.

Monday, November 14, 2005

Certo

acho q essa vida certa não virá para mim.
e nem sequer a linha torta.
eu habito o desconforto
e espero sem nada esperar.

é certo que há dor nesses cantos antigos
e mais certo ainda que ando velha feito mofo,
mas eu possuo esse vigor desforme do desencanto
e tudo assim é caos.

vai ver que não existe o porto
ou sou eu que já não mais suporto
esse cansaço.

pode ser que amanhã eu seja outra
e não me reconheça
e pode ser também que nunca mais
amanheça.

Friday, November 04, 2005

A mulher redescoberta

me veio a repentina lembrança da moça quieta e sempre à espreita de algo. eu fui assim por uma vida inteira... mas, derradeira, não pude durar. a irrealidade do imediato me socou a cara e me deixou sangrando e quis profundamente ser a mesma que já não mais era, a verdadeira. e eis que me veio essa outra mulher em mim, de cabelos esvoaçantes e boca carnuda. eu pude medir o meu viço e descobrir o negro e revolto mar de mim. e já não havia retorno para o que permanecia em minha memória. o passado me era impossível. eu me descobri vermelha, ventania que sou. existe essa vida que pulsa além da palidez e, eu, ah eu sempre fui colorida, ainda que no escuro. me veio o espelho que me revelou os seios e o negro contraste de meu sexo e me revelou assim, ainda me furtando todo resto. a ilusão que no instante me traveste é esta- estou liberta e sinto ventar como nunca. eu, a mulher redescoberta.

Wednesday, November 02, 2005

MAL SECRETO (interpretada por Gal Costa no disco FA-TAL)
Composição: Waly/ Macalé

Não choro
Meu segredo é que sou
Rapaz esforçado
Fico parado, calado, quieto
Não corro
Não choro
Não converso
Mais sacro meu medo
Mais caro minha dor
Já sei sofrer
Não preciso de gente
Que me oriente
Se você me pergunta:Como vai?
Respondo sempre igual:Tudo legal
Mas quando você vai embora
Movo meu rosto do espelho
Minha alma chora
Vejo o Rio de Janeiro
Comovo, não saldo, não mudo
Meu sujo olho vermelho
Não fico parado
Não fico calado
Não fico quieto
Corro, choro, converso e tudo mais
Jogo num verso
Intitulado o mal secreto