Travessia

Friday, February 10, 2006

Testemunho

A vida tem sido assim: diária. Eu acordo e construo uma rotina de coisas benéficas e, acima de tudo, procuro sentir muita dor e muito incômodo, só para ter certeza de estar crescendo. Meu corpo está mudando e se tornando mais otimista. Na minha cabeça, tudo muda também. De repente, mas nem tanto assim, eu compreendi que tenho que pagar todas as dívidas que fui fazendo quando escolhi me esconder de tudo e de todos, quando inventei meus inimigos. E elas só cresceram de lá pra ca´. E nem adianta mais chorar, que eu não quero. Eu quero sentir dor e aguentar firme, como num suplício. E sei que posso enxergar nisso muito de prazer. Mas não mais desse prazer puro que me embriagou enquanto estava reclusa. Eu já cumpri minha pena e, agora, liberta quero tudo o que me for mais difícil e desconfortável. Pois é deste modo que estou me vendo crescer. Eu nasci prisioneira desse desconforto e me travesti dele a partir do momento em que me foi possível alcançá-lo. Ainda que isto desagrade e me torne mal-quista, eu preciso desta repetição para me manter sã. É a repetição do meu corpo, educadora, que me faz enxergar o silêncio. E que tem me renovado. Estou me transformando. E deixo este testemunho para que me reconheça.