Travessia

Monday, June 27, 2005

O homem que sou

O homem senta-se ao lado.

E insinua histórias
Sobre o que se vê na sala escura.

Escura como o vão
entre a tela e nós dois.

O homem apaixonado
pelo sonho impossível.

O homem que igualmente sou,
tão tolo, tão deslocado e tão próprio.

Thursday, June 23, 2005

FOTOGRAFIA

14/06/05

Tudo agora se ressente da infância. O cheiro calmo dos dias, a simplicidade de tudo que estava à volta. A atmosfera de carinho, quente, suave, o pai chegando do serviço, a mãe nas horas intermináveis de amor, a fraternidade num corredor, bolinhas de gude e seriados japoneses à tardinha. Depois, o jantar limpo, o suco cálido da crença, o alimento suficiente. A vida em si era suficiente, apesar de desde sempre silenciosa e solitária- suficientemente certa e crente. E é como alguém que tenta vestir eternamente o mesmo vestido de primeira comunhão, olhando a foto amarelada, arfante por alcançar novamente a beleza do que havia. E, sem perceber o próprio corpo, força as mangas e a cintura, e a vestimenta, já puída, cede sem esforço ao fim definitivo, pois que mesmo material, somente era lembrança. E o espelho reflete a aberração: os trapos e a desmesura da menina que se enxerga, assim sem saber como, tão velha quanto o vestido. Os cabelos de um branco amarelado, as formas imensas e flácidas, as linhas do rosto, cicatrizes do tempo, os olhos foscos, perdidos em si mesmos. E a velha mesma precisa romper-se, posto que somente existe em lembrança de um futuro incerto. Despe-se, então, do vestido, da própria pele, da escravidão do terno e do amargo, e sobre o chão vão ficando as lembranças, passadas e vindouras, todas juntas. Até que reste apenas a mulher que ela é agora.

Tesouro

Livros, centenas deles empilhados num lugar remoto da lembrança. Onde costumava haver o descobrimento, a surpresa. Estavam ali pela intuição e jamais por qualquer ordem, antes pelo desejo de que houvesse a disciplina. Voltaram todos eles a mim numa noite insone, com o mesmo perfume, as mesmas cicatrizes do tempo. E os vou retirando desse lugar e empilhando ao léo em cima da mesa que servia de assento, posto que ainda criança. E por detrás, escondidas, uma infinitude de caixas, baús pequenos. É quando, extasiada, chamo aos gritos minha mãe para compartilhar comigo o esplendor de tal tesouro. São brincos, colares, pulseiras de todas as espécies, que havia certamente perdido em algum tempo, antes mesmo de existir. Ficamos horas a nos saciar com a descoberta, eu e minha mãe; como se invisíveis pela eternidade, resolvessem se doar agora. E os detalhes são tantos que nos sentimos ricas de ouro de tolo, é bem verdade, mas o valor é só nosso. Fomos nós as bandeirantes. Antes de nós, aquele amor era intocável.
Haloscan commenting and trackback have been added to this blog.

Travessia

Travessia
Elis Regina
Composição: M. Nascimento - F. Brant

Quando você foi embora, fez-se noite em meu viver
Forte eu sou, mas não tem jeito Hoje eu tenho que chorar
Minha casa não é minha e nem é meu este lugar
Estou só e não existo, muito tenho pra falar
Solto a voz nas estradas, já não quero parar
Meu caminho é de pedra, como posso sonhar?
Sonho feito de brisa, vento vem terminar
Vou fechar o meu pranto, vou querer me matar
Vou seguindo pela vida me esquecendo de você
Eu não quero mais a morte, tenho muito que viver
Vou querer amar de novo E se não der, não vou sofrer
Já não sonho, hoje faço com meu braço o meu viver
Solto a voz nas estradas, já não quero parar
Meu caminho é de pedra, como posso sonhar?
Sonho feito de brisa, vento vem terminar
Vou fechar o meu pranto, vou querer me matar