Travessia

Thursday, July 21, 2005

No pride

Culpada. Admito. Pelo dedo torto, pelas calçadas desertas, pelo cigarro apagado...Ninguém mais. A crueldade é sempre minha, mãe obscura do universo. Que ventem os ventos desmesuradamente, o caos é sempre meu. Do sangue fresco da galinha, fiz meu altar e rastejei como ninguém mais poderia. Eu ria, ria, ria...Os homens todos a me oferecer castelos e reinos límpidos, promessas de amor terno, o exato amor proibido. Com meu feitiço me bastei e arranquei suas vísceras como ninguém mais o faria. Enfeitei-me com seus restos e os tive inteiros...No pride, no pride, she's no one's bride.

Tuesday, July 19, 2005

The desperate kingdom of love

(PJ Harvey)

Oh love, you were a sickly child
And how the wind knocked you down
Put on your spurs, swagger around
In the desperate kingdom of love

Holy water cannot help you now
Your mysterious eyes cannot help you
Selling your reason will not bring you through
The desperate kingdom of love

There's another who looks from behind your eyes
I learn from you how to hide
From the desperate kingdom of love

At the end of this burning world
You'll stand proud, face upheld
And I'll follow you, into Heaven or Hell
And I'll become, as a girl
In the desperate kingdom of love

Ausência

tic-tac...

venta o vento
coração e cicatriz.

o que se perdeu
no ganho dos anos
e o que jamais se perderá.

eu poderia cantar pra calar
e falaria assim sem falar.

matiz silenciosa
de música escura
e esperança a cintilar.

preto e branco amor,
vida multicor-
sala de espera.

a falta do que não existe
do triste,
a falta do alegre.

há algo de trágico nisto tudo

tragicamente, desfez-se em harmonia
a minha melodia e o ritmo anuncia
que virá o dia, na aurora minha.

O que virá? será.
Eu venho? sou.

Meu pai me disse que é pra eu não chorar
quando raiar o dia, quando meu bem chegar...

Monday, July 18, 2005

Apenas

05/02/05

O problema é que já não escrevo concreto. Não sei mais dos detalhes de realidade. Só me cabe o sentimento que não me permite descobrir o que está errado, por ser tão impalpável e tão nítido. Já profundo, a superfície me escapa e é preciso saber dela, senão vem a alienação de si mesma. Ninguém pode ser feito apenas de abstrações, o cotidiano precisa de um pouco de leveza. Precisa do café em família, sendo este apenas aquele apressado e descuidado, sem olhares e interrupções, silêncios mínimos de si mesmo que ainda permitem recuperar o fio da conversa. É preciso querer mudar a cor do cabelo, limpar as gavetas, ir ao salão de beleza sem se sentir coagida por tanto desprendimento em relação ao mais precioso da vida. Pessoas descuidadas, apenas vivendo, entregues e de sorrisos espontâneos, que falam dos outros, sempre dos outros, expondo tanto a si mesmas. É preciso desejar escrever, e apenas isso. Sem salvações, sem esperanças de ser alcançada e acarinhada. Apenas juntar letrinhas e deixar que elas me revelem como um espelho. Escrever apenas. Mecanicamente. Continuamente e sem dor que se perceba, pois ao se perceber a dor, ela foge e deixa outra, ainda mais difícil de traduzir. É preciso escrever sem o desejo de se traduzir. E viver. Apenas. Em fluxo, instinto. Sem este cansaço que me amarela os dentes, fatalmente. Viver.

Pierrot

05/02/05

Chora, pierrot desencantado,
Mostra teu brilho fosco no salão vazio
E chama o teu amor que já partiu, que já partiu.

Lava teu rosto,
Tira os restos de confete da fantasia
E vem pra fora, brincar nas calçadas desertas.

O teu bloco já passou, já passou...
Veja a luz que revela o triste da alegria
Nas ruas de artifícios enlameados.

Abre teu coração, triste pierrot
E deixa que a morte da noite solitária
Há de raiar-te o dia.

A mulher que vai

Já faz algum tempo que escrevi...

11/04


Lá vai esta mulher de olhos escuros,
mágoas tão claras e erros tão fundos.

Vai para não voltar.
Partiu de lugar algum..
Ela e o peso inconstante dos ombros.

Lá se vai...

É a mulher mais louca que existe,
Vai sozinha e vai bem triste,
Para mais ermo castigo.

O mundo que já não há, será
somente o que a divide por dentro.

Já não mais compreender,
a incompreendida simplesmente deixou de querer.

O silêncio virá e tomará o seu corpo
Sem que haja paz ou crescimento.

Lá vai esta mulher e, por favor, por piedade,
Deixem-na ir para o mais longe de si.

Saturday, July 16, 2005

The dancer

"...He came riding fast like a phoenix out of fire flames
He came dressed in black with a cross bearing my name
He came bathed in light and the splendor and glory.."
De joelhos, escrevo para dizer que venero o teu choro escondido no banheiro, o teu medo do escuro, do escuro lugar em que te vi como uma aparição. E escrevo para alcançar o teu perdão, o perdão do que em mim ainda se assusta com o sexo. Entenda, sou uma recalcada, mas sou tua semelhante, igualmente extrema e sem lugar. A violência dos teus passos e do teu olhar entorpeceram-me os sentidos, e quis, ali mesmo, estar como estavas, despudorado e inocente. eu te perdôo por não ser o que sou, eu te perdôo pelo mal que te causei. E perdôo a nossa solidão. Vai, me deixa pegar tua mão e te fazer meu menino. Me deixa conhecer tuas lembranças e te salvar. Eu posso te redimir com meu amor magoado, com meu amor que nunca houve. Essa vida é tão parca. Me perdoe, amor.

Wednesday, July 13, 2005

Autocomiseração

Dei de sonhar com as coisas que não faço mais. A via expressa bifurcou-se. Estranho. Porque não choro mais, dei de chorar e muito em sonhos. Por não mais pensar no cotidiano, me invadiu o sono com a força desmedida da ausência de miopia para os olhos. É noite plena e, se para continuar, forjei em mim este ser desfalcado de autocomiseração, ela agora despudoradamente me rouba os sonhos, como querendo dizer-se indispensável, ao menos a minha poesia.

Monday, July 11, 2005

Delator

Haverás de ser punido,
desimporta o motivo.

Sejas glória ou desencanto,
sejas pranto, sejas pranto,
forte cor, inocente riso,
sejas paraíso, sejas paraíso.
sejas dor e sejas peito,
sejas meu amado eleito,
sejas força de ti mesmo,
sejas faca e sejas golpe,
sejas estrada, alerta e norte,
sejas rima ou sejas flor,
sejas imune despudor,
sejas ar ou sejas morte,
sejas o puro, impuro e o forte,
ou sejas corte, sejas corte,
sejas mãe ou sejas filha,
qualquer membro da família,
sejas noite, sejas noite,
sejas dia sem açoite,
sejas par ou amor,
sejas o ímpar, o ímpar,
sejas amor...

a guilhotina e o carrasco.

o fracasso desta raça é imanente.

Haverás de ser traído, atento amigo,
pelo coração delator.

Fantasma

A tua sombra na iminência eterna
ainda entorpece os meus sentidos.

E continuo a prenunciar tua vinda,
em cada esquina, a cada esquina.

Teu fantasma mais presente
em fumaça se esvaiu...

Toda a certeza no encontro,
toda ternura que se perdia...

Hoje

Um daqueles dias
em que o véu do desencanto,
suspenso, anuncia o rosto sem lembranças.

Em que todo o descaso e incompreensão
renderam-se à inevitabilidade de continuar.

Em que o peito anseia pelo frescor,
mas nada diz.

Um daqueles dias, em que a lágrima contida
faz do choro ainda mais forte, um aprendiz.

Saturday, July 02, 2005

dizer adeus

resgatar a dor profunda que agora há pouco me trouxe a verdade. É como se não pudesse haver continuação, como se não se pudesse deixar pra trás as recordações..Tudo é recordação. A minha vida existiu ? Retronar ao útero materno e garantir que a mesma vida de meus pais se refizesse..a velhice invadiu minha casa e minha alma..A tv desligada e o nada e o nada...O homem para o qual só houve trabalho, não sabe mais da vida, não sabe mais do novo..a mulher surpreendida em plena noite pelos fantasmas...E não, o tempo não há de passar..e não, eu não hei de viver esta vida sem eles que me abrigaram...e não, eu não quero dizer adeus nesta hora.
a minha vida desimporta. eu os quero eternos. eu os quero abraço eterno e não lembrança. não, não há como dizer adeus.

Friday, July 01, 2005

Estanque

O fluxo que não flui,
água no telhado estanque,
Tubulações entupidas.

chave que emperra,
corpo que desmancha,
esvai-se o tempo
que não passa.

Prego no pneu,
verme na maçã-
esplêndido vermelho?

Tudo e nada,
desrazão ciosa.

Instante seguro
que já se foi...

Vida que não se vive,
mulher que não se ama,
ainda que haja a vida da mulher
que não existe.