Travessia

Thursday, September 15, 2005

Plágio

Eu plagio os dedos delicados da moça
na xícara ao tomar café

as linhas que se formam no chão
com os fios perdidos do cabelo

a poeira na luz

o vendedor de côcos
e o de balões

o homem que me serve à mesa

eu plagio os dentes desse homem
e o suor que lhe sai pela gola da camisa

a velha que varre e me observa
em minha invisibilidade

eu plagio o respirar da minha mãe
e os dedos rudes do meu pai

eu plagio o sorriso nos guris da rua
quando molha o caminhão de água
os canteiros.

eu plagio esses fantasmas
que me vem pedir abrigo
aqui no peito.