Travessia

Sunday, September 25, 2005

Mar e Lua

Amaram um amor urgente

As bocas salgadas pela maresia
As costas lanhadas pela tempestade
Naquela cidade
Distante do mar
Amaram o amor serenado
Das noturnas praias
Levantavam as saias
E se enluaravam de felicidade
Naquela cidade
Que não tem luar
Amavam o amor proibido
Pois hoje é sabido
Todo mundo conta
Uma andava tonta
Grávida de lua
E outra andava nua
Ávida de mar

E foram ficando marcadas
Ouvindo risadas, sentindo arrepios
Olhando pro rio tão cheio de lua
E que continua
Correndo pro mar
E foram correnteza abaixo
Rolando no leito
Engolindo água
Boiando com as algas
Arrastando folhas
Carregando flores
E a se desmanchar
E foram virando peixes
Virando conchas
Virando seixos
Virando areia
Prateada areia
Com lua cheia
E à beira-mar

Chico Buarque


pessoas

Vivo pessoas que nem sei quem são
é isto que se chama solidão.

no escuro do quarto, na claro do vão
deslizo e parto de onde parte o vôo.

mas se fujo, permaneço
e se esqueço, não fujo

logo, eu forjo e fuço
e vou parir o amanhã.

vivo pessoas, aos milhares
e as conheço como se sequer existissem.

"Mas é tudo novo de novo"

Pois é. Postei a música logo abaixo por se tratar de uma letra que me emocionou profundamente. E me fez lembrar de uma entrevista com um filósofo italiano que, devido à falta de disciplina, deixei passar o nome. Ele dizia: - "Se vivemos no presente e consideramos o futuro e o passado como ilusões, então somos nós que estamos passando; o tempo não passa." O tempo existe desde sempre, somos nós que passamos, pra não sei onde, pra não-sei-o-quê...E dentro da gente ficam acontecendo coisas que só irão se revelar muito mais tarde. Sinto um desses processos em mim. Ainda não está claro, mas tem um mar revolto aqui dentro, quebrando na areia da praia, que pela manhã parece tão mansa. A tempestadade só me vem no escuro. Me escapa com o nascer do sol. O que está acontecendo? Para onde há de me levar este tão "selvagem coração"? Não é o tempo que passa, sou eu que passo no tempo e posso ser tanto esta criança sem linguagem ou esta que agora tenta e tentará enquanto estiver passando. " Mas é tudo novo de novo". E a cada segundo, celebro a vida que amo. Não se trata mais de esperar, mas de conhecer o que há.

TUDO NOVO DE NOVO

Composição: Moska

Vamos começar
Colocando um ponto final
Pelo menos já é um sinal
De que tudo na vida tem fim

Vamos acordar
Hoje tem um sol diferente no céu
Gargalhando no seu carrossel
Gritando nada é tão triste assim

É tudo novo de novo
Vamos nos jogar onde já caímos
Tudo novo de novo
Vamos mergulhar do alto onde subimos

Vamos celebrar
Nossa própria maneira de ser
Essa luz que acabou de nascer
Quando aquela de trás apagou

E vamos terminar
Inventando uma nova canção
Nem que seja uma outra versão
Pra tentar entender que acabou

Mas é tudo novo de novo
Vamos nos jogar onde já caímos
Tudo novo de novo
Vamos mergulhar do alto onde subimos

Thursday, September 15, 2005

Plágio

Eu plagio os dedos delicados da moça
na xícara ao tomar café

as linhas que se formam no chão
com os fios perdidos do cabelo

a poeira na luz

o vendedor de côcos
e o de balões

o homem que me serve à mesa

eu plagio os dentes desse homem
e o suor que lhe sai pela gola da camisa

a velha que varre e me observa
em minha invisibilidade

eu plagio o respirar da minha mãe
e os dedos rudes do meu pai

eu plagio o sorriso nos guris da rua
quando molha o caminhão de água
os canteiros.

eu plagio esses fantasmas
que me vem pedir abrigo
aqui no peito.
Pois eis que anseio aprender com a felicidade,
Com as manhãs que me invadiram agora há pouco...

Tuesday, September 13, 2005



me diga quem é o mar?

que eu vou lá...

me diga quem é mulher

me fale do mal-me-quer

e me dê um pouco de paz..

não mais, nunca mais.

Eu posso não ser eu mesma,

e tanta e quanto tudo o que sou,

mas venho e ponho a mesa,

a rima, a prima, o vôo.

e pode ser que nada,

seja o anverso,

que tudo seja mesmo verso.

assim, banal como banana,

me despeço.

Saturday, September 10, 2005

E o Gasparetto salvou minha vida

Lá estou eu. À tarde. Feriadão. Ligo a TV e vejo um senhor, falando a uma ex-apresentadora infantil que atende pelo nome de Marianne. Acabou de perder um irmão assassinado. É isso mesmo, trata-se de um programa sensacionalista. Pois bem. Em seguida, entra no estúdio a mãe dela. Uma senhora de olhos fundos, meia-idade (mais ou menos) e então, o programa se foca nela. Muito apegada à dor, com muita pena de si e culpa. Quer ter o filho de volta ainda que no resgate da angústia. E o apresentador primeiro a escuta. E depois, com muito cinismo, faz troça de seu estado, dizendo coisas do tipo: "olha que seu marido vai arranjar outra...homem não gosta de mulher coitadinha.."e eu lá. a uma altura dessas, era impossível mudar de canal. E continuou, mas desta vez falando de um amor libertário, sem apegos, que o filho, na outra dimensão onde estava, não poderia continuar vendo alguém tão querido em tal situação, que ninguém deve ter tanta pena de si mesmo, que isso é uma grande forma de egoísmo e que culpa é pretensão. -"Se você é modesta, então admita que fez o que pode com a mente que você tinha na época.." E eu hipnotizada com tudo aquilo. E me veio na cabeça a sensação de que as verdades são repetidas até na sessão da tarde. Se há um quê de vulgaridade nisso tudo, há também em mim porque enxergo tudo igual. O fato é que o Sr. Gasparetto, naquela tarde, salvou minha vida. Fã assumida.

Wednesday, September 07, 2005

Frankstein

você me feriu com suas armas de fogo,
seus canivetes, minas e armadilhas.

Morri.
Por séculos...
Eu estava morta.

Cada fragmento meu, ao mar, ao vento lançado.

Mas, ao acaso, aconteceu de
eu nascer de novo lá no fundo de mim,
bem não sei onde.

Como quem não esqueceu do frio que houve,
nasci espantalho, retalho de colcha, à la Frankstein.

E até hoje, ando a saber o que você fez com meus pedaços...

Outra

Verdadeiramente só
eu preciso estar-
com infinito anseio
do poema verdadeiro.

Mágoa nova,
que sequer partiu.

Com as mãos embebidas do sangue próprio,
esqueço a insanidade imanente.

Esqueço e vejo passar...

Amputada como os cadáveres que almocei,
eu hei de ser outra,
que saiba se salvar desta vaidade de escrever.
absolutamente interior

e eu me pergunto se está voltando
se é que algum dia foi embora...

cuidado.
as vozes podem te levar a extremos.

Sunday, September 04, 2005

seu rosto

Paralelas no infinito.

Te pressinto
nos lugares sombrios,
nos entorpecentes-
Vigilante de mim.

o seu rosto...

meu.
Fatalmente meu-
bote.

Indefeso,
Ignorante da minha selvageria,
Condenado ao meu amor.

Prometa-me que não vai gritar.